Eclectíssimo

Ab imo corde

Arquivo de Dezembro, 2011

E que tal olhar com atenção para os que estão próximos de ti necessitando de auxílio, para evitar que situações de suicídio aconteçam?

Publicado por Luís Paulo em Dezembro 24, 2011

Nesta quadra natalícia circulam aos milhões as mensagens com votos de felicidade, paz, amor, etc., etc., mas como a maior parte delas são padronizadas e reencaminhadas, copiadas e mais das vezes nem lidas e muito menos sentidas, algumas reencaminhadas mecanicamente com assinatura de terceiros, ou até reencaminhada por alguém para o seu criador como se tivesse sido obra do primeiro, e esquece-se o essencial:

Esquece-se aqueles que nos rodeiam e a quem uma simples palavra sincera, exclusiva, personalizada, dirigida especialmente a quem necessita dela, pode salvar vidas. Esquece-se porque não se vê!

O individualismo, o egoísmo, o egocentrismo e a hipocrisia grassam na sociedade, obnubilando-lhe o espírito! Novos valores (?) que chegaram e se instalaram, lenta e implacavelmente, tomando o lugar de valores ancestrais que foram elementos aglutinadores da sociedade, tal como uma massa de ar frio proveniente da Sibéria, que chega sem pedir consentimento e perfura o ar quente que nos conforta, enviando este para alto.

Espero que o telemóvel da senhora que se atirou do alto de um viaduto, com a sua filha bebé nos braços, não tivesse recebido destas frias e hipócritas mensagens de Feliz Natal no preciso momento em que nos deixava…

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Limpeza do país em quatro fases (uma primeira abordagem, pela rama).

Publicado por Luís Paulo em Dezembro 19, 2011

Para começar esta primeira abordagem, vamos lá continuar na senda das interpretações (das declarações dos governantes):

1.ª Fase: Durante os últimos anos, de governação socialista, qualquer pindérico, qualquer pé-de-chinelo, tirou um curso superior, qualquer analfabeto conseguiu ser professor; e à custa de quê? à custa dos subsídios e bolsas de estudo; subsídios e bolsas de estudo pagas por quem? pelos ricos, já se vê.

Isto assim não pode ser, o país assim não vai lá! O Rico a enriquecer e o pobretas a furarem-lhes o saco… Não, assim não!

2.ª Fase: Excesso de pindéricos doutores, engenheiros e professores, ainda por cima armados em finos a exigir que os ricos paguem a crise (ainda mais?! coitadinhos!). O melhor é convidar esses doutores pindéricos a emigrarem. E apontar-se-lhes os países de língua oficial portuguesa porque, coitaditos, o domínio de línguas estrangeiras não é o seu forte e as probabilidades de singrarem na vida, sem regressarem a infernizarem-nos a vida, são maiores.

Mas ainda assim não está tudo resolvido. Existe ainda um problema de monta: está a gastar-se sem proveito.

3.ª Fase: Para quê gastar dinheiro em Universidades, a formar doutores pindéricos, se depois eles vão lá para fora com o know-how aqui adquirido, à custa do financiamento dos ricos, e bolsas de estudo também custeadas pelos mesmos. Feche-se a maioria das Universidades (as públicas), fique-se apenas com as estritamente necessárias para formar a elite (política e capitalista) dirigente.

4.ª Fase: Promovam-se as festas do Emigrante, retome-se o comércio das malas de cartão e voltemos a ser felizes, «tipo»: Pobres, Analfabetos, Brutos, Brejeiros… mas Felizes! «Tipo» Muito Felizes.

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Se não fôssemos um povo analfabruto…

Publicado por Luís Paulo em Dezembro 17, 2011

Se não fôssemos um povo analfabruto saberíamos interpretar o cinismo daqueles que respondem, sobre as medidas políticas que deverão ser tomadas daqui a alguns meses, com uma grande cara de lata e um irónico e sarcástico sorriso nas trombas: «quem é que está em condições de saber o que teremos que fazer daqui a alguns meses».

Saberíamos interpretar (se não fôssemos um povo analfabruto) que essa resposta nos diz que afinal ainda há ideologia política na base dos partidos e consequentemente nas campanhas eleitorais.

Saberíamos interpretar que os programas eleitorais são meros panfletos publicitários de genuína e macabra publicidade enganosa, já que eles deviam ser feitos com medidas a concretizar numa legislatura que é de quatro anos, e afinal descobrimos agora que nem para daqui a alguns meses é possível prever medidas políticas.

Não é possível prever que medidas deverão ser tomadas, mas quaisquer que elas sejam sabemos, com toda a certeza, que serão medidas de Direita, se o governo é de Direita. Disso não tenhamos dúvidas.

Ou ninguém se interroga: então se eles (Governo) não sabem que medidas deverão ser tomadas daqui a alguns meses (e independentemente de tal ser verdade ou não) então para que se propuseram a governar o país por (pelo menos) quatro anos?

Eles sabiam, sim, talvez não as medidas concretas, mas o rumo a seguir. Também eu, quando pego no meu automóvel não sei que medidas vou tomar dali a meia dúzia de quilómetros, mas sei para onde quero ir. Por isso um partido de Direita que quer Governar, diz que vai governar bem, e fá-lo-á, sem dúvida, mas de acordo com os interesses dos seus. Se for de Direita o partido, será de Direita o Governo e de Direita serão as medidas, quaisquer que sejam elas as que venham a concretizar-se.

E medidas de Direita, com políticas de Direita, levadas a cabo por um Governo de Direita ultra-liberal, desculpem-me (desculpem a minha burrice e a minha ignorância) mas não poderão ser medidas que defendam os interesses dos mais carenciados, dos desprotegidos, enfim, numa palavra, dos (mais) pobres!

Medidas de Direita, Políticas de Direita, Governos de Direita, defendem e promovem os interesses da Direita, isto é: dos Ricos!

Dúvidas?!

Mas este povo analfabruto adora demagogia, adora brejeirice, adora chicote no lombo. E adora mais coisas que por ora não digo…

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DEMAGOGIA, MULTIDÃO E DEMOCRACIA!

Publicado por Luís Paulo em Dezembro 10, 2011

A propósito da euforia (demência) colectiva do povo português em momentos de crise e da demagogia político-partidária da direita ultraliberal, encarnada por uma pseudo-elite iluminada, ressabiada, sedenta de vingança pela afronta de ver nos últimos anos as suas praias favoritas e demais destinos turísticos invadidos por pés-de-chinelo armados em finos (sem serem de Lisboa), que até compraram casa própria (imagine-se, comprar casa própria, onde é que já se viu os pés-de-chinelo adquirirem casa própria!), e carro novo (ainda por cima grandes máquinas, ora vejam lá vocês), e de como foi possível esse mesmo povo maioritariamente composto desses pés-de-chinelo que carecem dos apoios vários que o Estado Social lhes concede como o feto carece do cordão umbilical e do líquido amniótico para sobreviver e se fazer gente, colocar no governo (do seu parco património) o carrasco que lhes estrangula o cordão umbilical e lhes suga o líquido amniótico não os matando talvez mas condicionando-os a viver raquíticos o resto dos seus dias, lembrei-me a este propósito, dizia eu, de uma frase cuja autoria é atribuída a Heródoto, escritor grego, a quem chamam o “Pai da História”, há cerca de 2500 anos, e que dizia mais ou menos assim:

“É sem dúvida mais fácil enganar uma multidão que um homem só”.

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Carta de José Saramago à sua avó Josefa

Publicado por Luís Paulo em Dezembro 4, 2011

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in “Deste Mundo e do Outro”

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Cogitações filosófico-mundanas

Publicado por Luís Paulo em Dezembro 1, 2011

A crescente desagregação da Família e dos valores familiares poderá tornar, em menos de uma década, as relações de incesto (inconsciente) mais frequentes do que a possibilidade de nos próximos anos um funcionário público vestir uma camisa nova…

A excessiva leviandade, fundada no egoísmo e na volúpia, com que progenitores (principalmente homens, mas não só) abandonam os filhos em consequência da rotura de relações conjugais ou equiparadas, deixa antever um futuro próximo muito preocupante. Não será difícil um homem de trinta e poucos anos envolver-se, duradoura ou fugazmente, com uma mulher que pode ser a filha que abandonou ainda muito jovem ou até mesmo no ventre materno…

Tal eventualidade sempre foi possível no plano das hipóteses, mas no contexto actual essa realidade poderá converte-se numa (preocupante) possibilidade rotineira, mais rotineira, até, do que um funcionário público ou trabalhador assalariado por conta de outrem vestir uma camisa nova!

Na verdade, é bem mais fácil, cómodo e prazenteiro ir a uma discoteca engatar uma “miúda” do que lutar pela defesa dum matrimónio em crise ou dos Direitos Fundamentais constantemente vilipendiados, desprezados e ignorados até,  por sucessivos governos…

Temos pena…

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