Eclectíssimo

Ab imo corde

Archive for the ‘Literatura’ Category

Carta de José Saramago à sua avó Josefa

Posted by Luís Paulo em Dezembro 4, 2011

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in “Deste Mundo e do Outro”

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Fazia anos neste dia, aquele que eu mais gostava de ter conhecido em Pessoa

Posted by Luís Paulo em Junho 13, 2011

Nasceu há 123 anos. Um Génio! Alguém que eu adorava ter conhecido pessoalmente!

Escrevia coisas simples, assim, como esta:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa

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Quem escreve assim não devia acabar nunca!

Posted by Luís Paulo em Maio 2, 2009

«A noite ainda tem muito para durar. A candeia de azeite, dependurada de um prego ao lado da porta, está acesa, mas a chama, como uma pequena amêndoa luminosa pairando, mal consegue, trémula, instável, suster a massa escura que a rodeia e enche de cima a baixo a casa, até aos últimos recantos, lá onde as trevas, de tão espessas, parecem ter-se tornado sólidas. José acordou em sobressalto, como se alguém, bruscamente, o tivesse sacudido pelo ombro, mas teria sido ilusão de um sonho logo desvanecido, que nesta casa só ele vive, e a mulher, que não se mexeu, e dorme. Não é seu costume despertar assim a meio da noite, em geral não acorda antes de a larga frincha da porta começar a emergir do escuro, cinzenta e fria. Inúmeras vezes pensara que deveria tapá-la, nada mais fácil para um carpinteiro, ajustar e pregar uma simples régua de madeira que sobrasse duma obra, porém, a tal ponto se tinha habituado a encontrar na sua frente, mal abria os olhos, aquela vara vertical de luz, anunciadora do dia, que acabara por imaginar, sem ligar ao absurdo da ideia, que, faltando ela, poderia não ser capaz de sair das trevas do sono, as do seu corpo e as do mundo. A frincha da porta fazia parte da casa, como as paredes ou o tecto, como o forno ou o chão de terra apisoada. Em voz baixa, para não acordar a mulher, que continuava a dormir, pronunciou a primeira bênção do dia, aquela que sempre deve ser dita quando se regressa do misterioso país do sono, Graças te dou, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que pelo poder da tua misericórdia, assim me restituis, viva e constante, a minha alma.

Talvez por não se encontrar igualmente desperto em cada um dos seus cinco sentidos, se é que, então, nesta época de que vimos falando, não estavam as pessoas ainda a aprender alguns deles ou, pelo contrário, a perder outros que hoje nos seriam úteis, José olhava-se a si mesmo como se fosse acompanhando, a distância, a lenta ocupação do seu corpo por uma alma que aos poucos estivesse regressando, igual a fios de água que, avançando sinuosos pelos caminhos das regueiras, penetrassem a terra até às mais fundas raízes, transportando a seiva, depois, pelo interior dos caules e das folhas. E por ver quão trabalhoso era este regresso, olhando a mulher, a seu lado, teve um pensamento que o perturbou, que ela, ali adormecida, era verdadeiramente um corpo sem alma, que a alma não está presente no corpo que dorme, ou então não faz sentido que agradeçamos todos os dias a Deus por todos os dias no-la restituir quando acordamos, e nesta altura uma voz dentro de si perguntou, O que é que em nós sonha o que sonhamos, Porventura os sonhos são as lembranças que a alma tem do corpo, pensou a seguir, e isto era uma resposta. Maria moveu-se, acaso a alma dela estaria ali por perto, já dentro de casa, mas no fim não despertou, apenas andaria em afãs de sonho, e, tendo soltado um suspiro fundo, entrecortado como um soluço, chegou-se para o marido, num movimento sinuoso, porém inconsciente, que jamais ousaria quando acordada. José puxou o lençol grosso e áspero para os ombros e aconchegou melhor o corpo na esteira, sem se afastar. Sentiu que o calor da mulher, carregado de odores, como de uma arca fechada onde tivessem secado ervas, lhe ia penetrando pouco a pouco o tecido da túnica, juntando-se ao calor do seu próprio corpo. Depois, deixando descer devagar as pálpebras, esquecido já de pensamentos, desprendido da alma, abandonou-se ao sono que voltava.

Só tornou a acordar quando o galo cantou. A frincha da porta deixava passar uma cor grisalha e imprecisa, de aguada suja. O tempo, usando de paciência, contentara-se com esperar que se cansassem as forças da noite e agora estava a preparar o campo para a manhã chegar ao mundo, como ontem e sempre, em verdade não estamos naqueles dias fabulosos em que o sol, a quem já tanto devíamos, levou a sua benevolência ao ponto de deter, sobre Gabaon, a sua viagem, assim dando a Josué tempo de vencer, com todos os vagares, os cinco reis que lhe cercavam a cidade. José sentou-se na esteira, afastou o lençol, e nesse momento o galo cantou segunda vez, lembrando-lhe que se encontrava em falta de uma bênção, aquela que se deve à parte de méritos que ao galo coube quando da distribuição que deles fez o Criador pelas suas criaturas, Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que deste ao galo inteligência para distinguir o dia da noite, isto disse José, e o galo cantou terceira vez. Era costume, ao primeiro sinal destas alvoradas, responderem-se uns aos outros os galos da vizinhança, mas hoje ficaram calados, como se para eles a noite ainda não tivesse terminado ou mal tivesse começado. José, perplexo, olhou o vulto da mulher, estranhando-lhe o sono pesado, ela que o mais ligeiro ruído fazia despertar, como um pássaro. Era como se uma força exterior, descendo, ou pairando, sobre Maria, lhe comprimisse o corpo contra o solo, porém não tanto que a imobilizasse por completo, notava-se mesmo, apesar da penumbra, que a percorriam súbitos estremecimentos, como a água de um tanque tocada pelo vento. Estará mal, pensou, mas eis que um sinal de urgência o distraiu da preocupação incipiente, uma instante necessidade de urinar, também ela muito fora do costume, que estas satisfações, na sua pessoa, habitualmente manifestavam-se mais tarde, e nunca tão vivamente. Levantou-se, cauteloso, para evitar que a mulher desse pelo que ia fazer, pois escrito está que por todos os modos se deve preservar o respeito de um homem, só quando de todo em todo não for possível, e, tendo aberto devagar a porta que rangia, saiu para o pátio. Era a hora em que o crepúsculo matutino cobre de cinzento as cores do mundo. Encaminhou-se para um alpendre baixo, que era a barraca do jumento, e aí se aliviou, escutando, com uma satisfação meio consciente, o ruído forte do jacto de urina sobre a palha que cobria o chão. O burro voltou a cabeça, fazendo brilhar no escuro os olhos salientes, depois sacudiu com força as orelhas peludas e tornou a meter o focinho na manjedoura, a tentear os restos da ração com os beiços grossos e sensíveis. José aproximou-se da talha das abluções, inclinou-a, fez correr a água sobre as mãos, e depois, enquanto as enxugava na própria túnica, louvou a Deus por, em sua sabedoria infinita, ter formado e criado no homem os orifícios e vasos que lhe são necessários à vida, que se um deles se fechasse ou abrisse, não devendo, certa teria o homem a sua morte. Olhou José o céu, e em seu coração pasmou.

O sol ainda tarda a despontar, não há, por todos os espaços celestes, o mais lavado indício dos rubros tons do amanhecer, sequer uma pincelada leve de róseo ou de cereja mal madura, nada, a não ser, de horizonte a horizonte, tanto quanto os muros do pátio lhe permitiam ver, em toda a extensão de um imenso tecto de nuvens baixas, que eram como pequenos novelos espalmados, iguais, uma cor única de violeta que, principiando já a tornar-se vibrante e luminosa do lado donde há-de romper o sol, vai progressivamente escurecendo, mais e mais, até se confundir com o que, do lado de além, ainda resta da noite. Em sua vida, José nunca vira um céu como este, embora nas longas conversas dos homens velhos não fossem raras as notícias de fenómenos atmosféricos prodigiosos, todos eles mostras do poder de Deus, arcos-íris que enchiam metade da abóbada celeste, escadas vertiginosas que um dia ligaram o firmamento à terra, chuvas providenciais de manjar-do-céu, mas nunca esta cor misteriosa que tanto podia ser das primordiais como das derradeiras, flutuando e demorando-se sobre o mundo, um tecto de milhares de pequenas nuvens que quase se tocavam umas às outras, espalhadas em todas as direcções como as pedras do deserto. Encheu-se-lhe o coração de temor, imaginou que o mundo ia acabar, e ele posto ali, única testemunha da sentença final de Deus, sim, única, há um silêncio absoluto na terra como no céu, nenhum rumor se ouve nas casas vizinhas, uma voz que fosse, um choro de criança, uma prece ou uma imprecação, um sopro de vento, o balido duma cabra, o ladrar dum cão, Por que não cantam os galos, murmurou, e repetiu a pergunta, ansiosamente, como se de cantarem galos é que pudesse vir a última esperança de salvação. Então, o céu começou a mudar. Pouco a pouco, quase sem perceber-se, o violeta tingia-se e deixava-se penetrar de rosa-pálido na face interior do tecto de nuvens, avermelhando-se depois, até desaparecer, estava ali e deixara de estar, e de súbito o espaço explodiu num vento luminoso, multiplicou-se em lanças de ouro, ferindo em cheio e trespassando as nuvens, que, sem saber-se porquê nem quando, haviam crescido, tornadas formidáveis, barcas gigantescas arvorando incandescentes velas e vogando num céu enfim liberto. Desafogou-se, já sem medos, a alma de José, os olhos dilataram-se-lhe de assombro e reverência, não era o caso para menos, de mais sendo ele o único espectador, e a sua boca proferiu em voz forte os louvores devidos ao criador das obras da natureza, quando a sempiterna majestade dos céus, tendo-se tornado pura inefabilidade, não pode esperar do homem mais do que as palavras mais simples, Louvado sejas tu, Senhor, por isto, por aquilo, por aqueloutro.

Disse-o ele, e nesse instante o rumor da vida, como se o tivesse convocado a sua voz, ou apenas entrando de repente por uma porta que alguém de par em par abrisse sem pensar muito nas consequências, ocupou o espaço que antes pertencera ao silêncio, deixando-lhe apenas pequenos territórios ocasionais, mínimas superfícies, como aqueles breves charcos que as florestas murmurantes rodeiam e ocultam. A manhã subia, expandia-se, e em verdade era uma visão de beleza quase insuportável, duas mãos imensas soltando aos ares e ao voo uma cintilante e imensa ave-do-paraíso, desdobrando em radioso leque a roda de mil olhos da cauda do pavão-real, fazendo cantar perto, simplesmente, um pássaro sem nome.

Um sopro de vento ali mesmo nascido bateu na cara de José, agitou-lhe os pêlos da barba, sacudiu-lhe a túnica, e depois girou à volta dele como um espojinho atravessando o deserto, ou isto que assim lhe parecia não era mais do que o aturdimento causado por uma súbita turbulência do sangue, o arrepio sinuoso que lhe estava percorrendo o dorso como um dedo de fogo, sinal de uma outra e mais insistente urgência.

Como se se movesse no interior da rodopiante coluna de ar, José entrou em casa, cerrou a porta atrás de si, e ali ficou encostado por um minuto, aguardando que os olhos se habituassem à meia penumbra. Ao lado dele, a candeia brilhava palidamente, quase sem irradiar luz, inútil. Maria, deitada de costas, estava acordada e atenta, olhava fixamente um ponto em frente, e parecia esperar.

Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria. Ela desviou os olhos, soergueu um pouco a parte inferior da túnica, mas só acabou de puxá-la para cima, à altura do ventre, quando ele já se vinha debruçando e procedia do mesmo modo com a sua própria túnica, e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto durante o sonho e desta maneira as deixara ficar, fosse por inusitada indolência matinal ou pressentimento de mulher casada que conhece os seus deveres. Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado.

Tendo pois saído para o pátio, Deus não pôde ouvir o som agónico, como um estertor, que saiu da boca do varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz de reprimir. Apenas um minuto, ou nem tanto, repousou José sobre o corpo de Maria. Enquanto ela puxava para baixo a túnica e se cobria com o lençol, tapando depois a cara com o antebraço, ele, de pé no meio da casa, de mãos levantadas, olhando o tecto, pronunciou aquela sobre todas terrível bênção, aos homens reservada, Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, por não me teres feito mulher. Ora, a estas alturas, Deus já nem no pátio devia estar, pois não tremeram as paredes da casa, não desabaram, nem a terra se abriu. Apenas, pela primeira vez, se ouviu Maria, e humildemente dizia, como de mulheres se espera que seja sempre a voz, Louvado sejas tu, Senhor, que me fizeste conforme a tua vontade, ora, entre estas palavras e as outras, conhecidas e aclamadas, não há diferença nenhuma, repare-se, Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra, está patente que quem disse isto podia, afinal, ter dito aquilo.

Depois, a mulher do carpinteiro José levantou-se da esteira, enrolou-a juntamente com a do marido e dobrou o lençol comum.»

in: SARAMAGO, José – O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Editorial Caminho, 1991

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O Papalagui… ou Tantas «coisas» para quê?!…

Posted by Luís Paulo em Setembro 12, 2008

No início do século XX o chefe indígena Tuiavii, chefe de tribo de Tiavéa, da ilha Samoa, na Polinésia, fez uma visita à Europa por ocasião da apresentação dos povos ultramarinos ao imperador alemão (nessa altura a referida ilha Samoa era território da Alemanha).

Tuiavii ficou tão impressionado com o que viu que decidiu partilhar a experiência com o seu povo através de vários discursos, proferidos em tom muito crítico, onde contou os costumes e hábitos do Papalaguí (homem branco). Esses discursos foram publicados por Erich Sheurmann, alemão que viveu naquela época com a referida comunidade indígena.

É um desses discursos que hoje transcrevo. Um texto com cem anos, proferido por um homem “sem instrução” e ainda hoje nos faz pensar (a mim faz) se realmente temos necessidade de tantas «coisas».

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Podereis reconhecer também o Papalagui pelo seu desejo de nos fazer crer que somos pobres e miseráveis e que necessitamos de muita ajuda e piedade, em virtude de não possuirmos «Coisas».

Queridos irmãos destas muitas ilhas: permiti que vos diga o que é uma «coisa». A noz de coco é uma Coisa, o enxota-moscas, o pano, a concha, o anel, o prato da comida, o adorno da cabeça são outras tantas coisas. Mas há duas espécies de coisas. Há coisas que o Grande Espírito cria sem nós vermos e que nos não exigem, a nós, humanos, qualquer esforço ou trabalho, coisas tais como a noz de coco, a concha e a cabana, e há coisas que os homens criam, que exigem muito esforço e trabalho, tais como o anel, o prato ou o enxota-moscas. Pretende então o alii (1) que são estas coisas criadas pelas suas próprias mãos, as coisas humanas, que nos fazem falta; pois não é possível que se esteja a referir às coisas criadas pelo Grande Espírito. Quem, realmente, será mais rico e possuirá mais coisas do Grande Espírito do que nós? Passeai os olhos à vossa volta, até ao longínquo horizonte, onde a grande abóbada azul se apoia na borda da terra: está tudo cheio de grandes coisas – a floresta virgem com os seus pombos selvagens, os seus colibris e periquitos, a lagoa com os seus pepinos do mar, as suas conchas, as suas lagostas e outros animais aquáticos, a praia com o seu rosto claro, a pele macia da areia, o grande mar capaz de imitar o guerreiro furioso, capaz também de sorrir como uma taopoú (2), a grande abóbada azul diferente de hora para hora, semeada de grandes flores que nos dão uma luz ora doirada ora argêntea. Para quê ser parvo, para quê criar ainda mais coisas para além das coisas sublimes que o Grande Espírito nos dá? Nunca, mas nunca, poderemos nós igualá-lo, porquanto o nosso espírito é demasiado pequeno e demasiado fraco para se medir com o poder do Grande Espírito, e a nossa mão demasiado fraca para se medir com a sua mão magnífica e possante. Tudo quanto fizermos será medíocre, nem sequer vale a pena falar nisso. Com a ajuda de um pau podemos alongar o nosso braço, com a ajuda deu ma tanoa (3) aumentar o côncavo da nossa mão, mas nunca Samoanês ou Papalagui algum fez uma palmeira ou um tronco de kava.

O Papalagui julga-se na verdade capaz de obrar tais coisas, julga-se tão forte como o Grande Espírito. Eis porque, do nascer ao pôr-do-sol, milhares e milhares de mãos mais não fazem do que fabricar coisas, coisas humanas cujo sentido ignoramos e cuja beleza desconhecemos. O Papalagui procura inventar sempre novas coisas. As suas mãos tornam-se febris, o seu rosto, cor-de-cinza, e curvadas as suas costas; mas os olhos brilham-lhe de felicidade sempre que consegue uma nova coisa. Logo todos a querem ter, todos a adoram e a celebram com cantos na sua língua.

Oxalá, irmãos meus, me acrediteis quando vos digo: eu descobri o que se oculta por detrás dos pensamentos do Papalagui, eu vi o que ele pretende, tão claramente como ao sol do meio-dia. Destruindo, por onde quer que passe, as coisas do Grande Espírito, pretende ele, pelas suas próprias forças, fazer reviver o que mata e persuadir-se a si mesmo que é o Grande Espírito criador das várias coisas.

Imaginemos, irmãos, que de repente surge a grande tempestade e arranca a floresta virgem e as montanhas, com todas as suas folhas e árvores, e leva à sua frente todas as conchas e os animais da lagoa; imaginemos que não mais haverá flores de ibisco para as nossas donzelas enfeitarem os cabelos, que tudo, tudo quanto está à vista desaparece, que só nos resta a areia, e que o solo se assemelha à palma da mão estendida ou a uma colina pela qual escorreu a lava incandescente: lamentaríamos então ter perdido tudo -as palmeiras, as conchas, a floresta virgem. Pois precisamente onde se erguem as inúmeras cabanas dos Papalaguis – esses sítios a que eles chamam «cidades» – o solo está tão árido como a palma da mão! É por isso que o Papalagui perdeu o trambelho e brinca ao Grande Espírito para esquecer o que não tem. Como é assim pobre, e a sua terra triste, apodera-se das coisas, colecciona-as como um louco que apanhasse folhas murchas e com elas enchesse a casa. Mas é também por isso que ele nos inveja e deseja que nos tornemos pobres à semelhança dele.

É sinal de pobreza o homem precisar de tanta coisa mostra, com isso, que é pobre em coisas do Grande Espírito. O Papalagui é pobre porque está obcecado pelas coisas. Já não pode passar sem elas. Quando ele, das costas da tartaruga, faz um instrumento para alisar os cabelos (depois de lhes aplicar um óleo), logo de seguida faz ainda uma pele para esse instrumento, um pequeno baú para pôr a pele e mais um baú grande para pôr o baú pequeno. Há baús para os panos, para os tecidos de cima e os tecidos de baixo, para os tecidos de limpar o corpo, tecidos para cobrir a boca e outros tecidos mais, baús para pôr as peles para as mãos e as peles para os pés, baús para o metal redondo e para o papel forte, baús para as provisões e para o livro santo, numa palavra: para tudo quanto há. De todas as coisas faz ele inúmeras coisas, quando uma só bastava. Quando entramos numa cabana-cozinha europeia, vemos uma porção de pratos de comida e de utensílios de cozinha que nunca são usados. Para cada alimento há uma tanoa diferente, uma para a água, outra para o kava europeu, mais outra para a noz de coco e outra ainda para o pombo.

Numa cabana europeia há sempre tantas coisas que, mesmo que todos os homens de uma aldeia de Samoa carregassem mãos e braços com elas, nem assim conseguiriam levar tudo. Há, numa única cabana, tão grande número de coisas, que a maior parte dos chefes de tribo Brancos necessita de imensos homens e mulheres que outra coisa não fazem do que pôr essas tais coisas no seu lugar e limpar a poeira que as cobre. E até a taopoú mais importante gasta grande parte do seu tempo a contar as suas inúmeras coisas, a mudá-las de um lado para o outro e a limpá-las. Sabeis, irmão, que eu não minto, e que vos digo toda a verdade tal como a vi, sem tirar nem pôr. Crede que há na Europa homens que encostam a arma de fogo à sua própria fronte, pois preferem deixar de viver do que viver sem coisas. Porque o Papalagui embriaga o seu próprio espírito de toda a maneira e feitio e, assim, convence-se a si próprio que não pode viver sem coisas, do mesmo modo que um homem não pode viver sem comer.

É por isso que eu nunca encontrei na Europa uma cabana onde pudesse instalar-me, onde nada me impedisse de estender os membros em cima duma esteira. Todas as coisas lançavam chispas e tinham cores tão berrantes que eu não conseguia pregar olho. Nunca encontrei verdadeira tranquilidade e nunca senti, como então, tantas saudades da minha cabana de Samoa, onde só o que há uma esteira e um rolo de dormir, onde só o que chega até mim é a suave brisa do mar.

Quem tem poucas coisas considera-se pobre e isso fá-lo sentir-se triste. Não há Papalagui algum que seja capaz de cantar e mostrar um olhar feliz se apenas possuir, como nós, uma esteira para dormir e uma tanoa para comer. Muito se lamentariam os homens e as mulheres do mundo branco se vivessem nas nossas cabanas! Tratavam logo de ir buscar madeira à floresta; traziam depois carapaças de tartaruga, e vidro, e arame, e pedras de todas as cores, bem como outras coisas mais; as suas mãos não paravam, de manhã à noite, até a cabana de Samoa ficar repleta de pequenas e grandes coisas, coisas que se decompõem, todas elas, rapidamente, que um fogo ou uma chuvada tropical bastam para destruir, de modo que é sempre preciso tornar a fazer outras.

Quanto mais realmente europeu for um homem, mais necessidade terá de coisas. Eis a razão por que as mãos do Papalagui nunca param de fazer coisas. A razão por que o rosto dos Brancos se apresenta geralmente cansado e triste, por que só muito poucos gastam tempo com as coisas do Grande Espírito, e a jogar no largo da aldeia, e a compor e cantar canções joviais, ou a dançar ao domingo, em plena luz do dia, ou a fruir dos seus membros de todas as formas possíveis, como a nós nos é dado fazer, é que eles têm sempre coisas a fazer. E coisas a guardar. Coisas que se fincam, que se agarram a eles como as formiguinhas das praias. Para se apropriarem das coisas, cometem toda a espécie de crimes, sem que isso lhes afecte o ânimo. Guerreiam-se, não porque a sua honra esteja em jogo, ou para medir forças, mas apenas por cobiça das coisas de outrem.

Apesar disso, todos eles têm consciência de quão pobre é a sua vida; senão, não haveria tantos Papalaguis venerados por terem levado a vida inteira amolhar cabelos em líquidos de várias cores e a pintarem assim belas imagens sobre esteiras brancas. Esses copiam todas as belas coisas criadas por Deus, com todos os cambiantes de cor e toda a sincera alegria de que são capazes. Criam terra mole, desprovida de panos, raparigas de belos movimentos livres como os da taopoú de Matautu (4) ou figuras de homens brandindo clavas, retesando o arco ou espiando pombos na floresta. O Papalagui constrói também grandes cabanas de festa especialmente para esses seres humanos de barro, que as gentes vêm de longe visitar, a fim de fruírem da sua divina beleza.

Envoltos nos seus muitos e grossos panos, os visitantes postam-se diante dos homens de barro e estremecem de emoção. Vi Papalaguis chorarem de alegria à vista de uma tal beleza, que eles mesmos perderam. E eis que, hoje, os homens brancos querem trazer-nos os seus tesouros, as suas coisas, para também nós nos tornarmos ricos! Contudo essas coisas não passam de setas que envenenam mortalmente o peito daquele que é atingido. Ouvi um Branco que conhece bem a nossa terra dizer: «Temos que levá-los a ter necessidades!» Necessidades, quer dizer coisas! E acrescentou depois esse homem inteligente: «Só então é que eles ganharão de facto gosto pelo trabalho!» E propôs-nos que empregássemos também a força das nossas mãos a fazer coisas, coisas para nós, é claro, mas, acima de tudo, coisas para ele, Papalagui! Como se também nós devêssemos ficar derreados, envelhecidos e curvados!

Irmãos destas muitas ilhas: temos que tomar cuidado e permanecer vigilantes, pois as palavras do Papalagui parecem bananas doces, mas estão cheias de dardos ocultos, feitos para matar toda a luz e alegria que há em nós. Não esqueçamos nunca que, à parte as coisas do Grande Espírito, de poucas coisas mais necessitamos. Ele deu-nos olhos para vermos as suas coisas. Ora é necessário mais que uma vida para um homem as ver todas. Nunca da boca do homem branco saiu mentira maior do que esta que ele diz: «As coisas do Grande Espírito não servem para nada; só as coisas do homem são úteis, as mais úteis!» Por mais numerosas, por mais refulgentes, brilhantes, sedutoras e aliciantes que sejam, nunca as coisas do Papalagui tornam mais belo o seu corpo, mais brilhantes, os seus olhos, mais apurados os seus sentidos. As coisas dele não servem, pois, para nada; e por conseguinte, o que ele diz e tenta impor-nos vem directo do espírito mau, os seus pensamentos estão imbuídos de veneno.

 O Papalagui, Discursos de Tuiavii Recolhidos por Erich Scheurmann

(1) alii – Amo, cavaleiro

(2) taopoú – virgem da aldeia

(3) tanoa – recipiente de madeira com vários pés, no qual se prepara a bebida nacional

(4) taopoú de Matautu – aldeia de Upolo

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No começo inventavam-se e criavam-se produtos para satisfazer as necessidades do Homem; hoje criam-se e inventam-se necessidades para consumir os produtos… desregradamente!

Estamos de regresso às aulas! Não compre muitas «coisas» desnecessárias

L.P.

 

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A língua mais bonita do mundo é o português!

Posted by Luís Paulo em Maio 2, 2008

Numa conferência de imprensa que antecedeu a inauguração da exposição José Saramago – A Consistência dos Sonhos, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, o Nobel da Literatura Português, José Saramago, deixou escapar a seguinte confissão: «Descobri, há pouco tempo, que a língua mais bonita do mundo é o português. Talvez por viver no estrangeiro, comecei a saborear as palavras e a reconhecer a sua beleza melódica.»

Aproveitou também para mandar um recado à comunicação social lembrando-lhes o dever de assumir com seriedade a defesa da língua afirmando: «há uma grande responsabilidade da comunicação social na defesa da língua portuguesa, a de Camões.»

No meu humilde parecer o nosso Nobel esqueceu-se responsabilizar uma classe muito importante da sociedade portuguesa para a preservação (ou morte) da Língua Portuguesa: a dos estudantes.

Com a total globalização da sociedade, com a tão almejada “Aldeia Global” à beira da consecução, que sentido deverá ser atribuído a conceitos como Nacionalidade ou Pátria?!

Fernando Pessoa dizia a esse respeito: «A minha pátria é a Língua Portuguesa».

É que, de facto, nós somos a Língua Portuguesa e esta somos nós, seja Portugal Portugal, Ibéria, Europa, Mundo ou Aldeia Global.

Quando perdermos o respeito pela nossa Pátria, a nossa Língua, perderemos o respeito por nós próprios, pior, perderemos o respeito pelos nossos antepassados, ou pior, perderemos o respeito pelos nossos filhos…

Ai, como eu amo os meus filhos!…
L.P.

 

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LINKS MUITO ÚTEIS

Posted by Luís Paulo em Abril 27, 2008

Caros visitantes,

O Eclectíssimo disponibiliza a partir de hoje uma nova secção.

Trata-se de uma compilação de links de sites/blogues com recursos educativos diversos que eu fui seleccionando como favoritos durante as minhas pesquisas.

A lista será actualizada à medida que for encontrando novos sites/blogues de interesse ou me sejam indicados por amigos e/ou visitantes do Eclectíssimo.

Para aceder a esta nova secção basta clicar no link correspondente, abaixo do “Arquivo do blogue”, ou no título que se segue. 

Votos de boa navegação e excelentes resultados nos vossos estudos.

Porque, como dizia Aristóteles, “A cultura é o melhor conforto para a velhice”
L.P.

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Dia Mundial do Livro!…

Posted by Luís Paulo em Abril 23, 2008





Hoje comemora-se o Dia Mundial do Livro, o nosso melhor amigo. Esta imagem é um presente a mim próprio. Quem, como eu, leu todas estas aventuras na infância, saberá porquê. Tenho-os todos comigo, há precisamente 31 anos, como uma bíblia em 21 volumes.

Votos de Boas Leituras!…
L.P.

 

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LIBERDADE

Posted by Luís Paulo em Março 7, 2008

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa (Antologia Poética)

Ai que prazer…
L.P.

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A sabedoria é o alimento do espírito!…

Posted by Luís Paulo em Janeiro 12, 2008

Anda, meu Silva, estuda-m’aleção,
Vêsse-te instruz, rapaj, qu’ainstrução
É dosprito upão!
Ou querch ficar pra sempre inguenorantão?

Poin os olhos no Silva, teu irmão.
Pensas talvês que não le custou, não?
Mas com’é qu’êl foi pdir aumentação

au patrão?
E tinh’ rrazão…
Poema de Alexandre O’Neil

«Os animais, que não têm senão o seu corpo para conservar, ocupam-se continuamente na procura de alimentos; mas os homens, de quem a principal parte é o espírito, deveriam empregar os seus principais cuidados na procura da sageza, que é o seu verdadeiro alimento (…)».

René Descartes
E não engorda…
L.P.

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Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX(I)

Posted by Luís Paulo em Dezembro 30, 2007

Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.”

É desta forma que Almada-Negreiros dá início, há precisamente 90 anos, ao seu «Ultimatum Futurista».

Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de Abril de 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de Junho de 1970, em Lisboa.

Publicou o «Ultimatum» a 17 de Dezembro de 1917 no número único da revista “Portugal Futurista” mas, como o mês de Dezembro só termina amanhã, entendi que ainda está dentro do prazo para assinalar o nonagésimo aniversário da sua publicação.

O texto está impregnado do espírito Futurista, que se iniciara em 1909 com o manifesto de Filippo Tommaso Marinetti publicado na revista Le Fígaro.

Após a sua leitura terão oportunidade de constatar o quanto ele está actualizado. Mais, o quanto as suas palavras são intemporais.

Estive tentado a colocar aqui o texto integral do ULTIMATUM FUTURISTA de Amada-Negreiros. Mas, por dificuldades que se prendem com direitos autoriais, resolvi mudar de estratégia e colocar um ‘link’ que permitirá aos meus digníssimos visitantes ter acesso ao referido documento – excelentemente apresentado por uma belíssima introdução a qual, confesso, traduzindo o meu pensamento eu não conseguiria fazer melhor. Há males que vêm por bem.

Para ler o texto na integra basta clicar aqui ou na imagem seguinte:

“Auto-retrato com Boné”, óleo sobre tela
de Almada-Negreiros, c. 1927

Ao soarem as 12 badaladas, assinalando a passagem do ano, beberei uma tacinha de espumante à memória de Almada-Negreiros.

Um voto de esperança no FUTURO.

L.P.

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